Histórias de cura e livramento em Agreste – Parte 1

Muito me surpreendeu a repercussão da reportagem sobre Agreste. Havia feito apenas baseado na curiosidade jornalística alimentada pela vontade de contar uma boa história. Diante de tantas informações que chegaram, vieram também, algumas histórias.

Decidi começar por duas delas.

Edson Gomes hoje Secretário de Empreendedorismo da Prefeitura de Quixelô, na época do fato a ser narrado era responsável pelos transportes. É comum o mandar ‘buscar e deixar’ de pessoas doentes ou em tratamento por estas bandas do sertão.

A maioria não tem transporte e cabe ao poder público fazê-lo. Edson estava junto com o vereador Wagner Vieira e levavam de volta uma paciente que estava se tratando de lúpus.

O caminho escolhido passava em frente à igreja de Nossa Senhora das Dores do Agreste. Em determinado momento o pneu do carro fura e para em frente à igreja. Mas uma surpresa esperava por eles. A chave de roda, desgastada, não conseguia encaixe preciso para extrair o parafuso da roda.

Estavam eles no meio da caatinga com uma paciente com lúpus distante 3 ou 4 quilômetros do povoado mais próximo. Parece uma distância pequena, mas no meio do sertão seria uma caminhada de quase uma hora.

Eles não tinham esse tempo. Foi aí que Edson decidiu acionar o sino da igreja como forma de chamar a atenção de alguém e pedir ajuda, mas precisava entrar nela. Acontece que depois do roubo do sino e da madeira do tampo do altar, a igreja sempre se mantinha muito bem fechada. Mas Edson resolveu pelo menos tentar ver se havia algo aberto. E foi o que ele fez.

Enquanto o tempo corria apressado, Edson estava procurando encontrar uma porta aberta, o Wagner olhava a tentativa do Edson de ter acesso ao sino. E eis que uma porta lateral abriu-se a um leve empurrão e Edson teve acesso à igreja e acionou o sino.

O barulho foi ouvido na comunidade de Melancia, uns três quilômetros dali, aproximadamente. Os moradores assustaram-se ao ouvir o sino tocando. Não era a primeira vez que acontecia. Alguns contam como uma das lendas do lugar que ele tocava do nada, mas poucos ou só um ouvia. Nesse caso era diferente, todos estavam escutando o sino tocar freneticamente. Foi então que Francisco decidiu ir lá.

Ao chegar deparou-se com a cena do carro de Edson e o Wagner junto dele e a paciente no carro. Relatado o problema, rapidamente a chave de roda foi providenciada e o pneu trocado.

Mas antes ficou no ar a pergunta: “Como essa porta estaria aberta se a igreja estava toda fechada?” Bom, ninguém perdeu tempo com isso, pois tempo era o que eles não tinham mais a perder.

Os viajantes seguiram para completar mais uma missão de assistência e Francisco voltou para Melancia como se nada tivesse acontecido. Ou quase nada.

Francisco e a dor da alma chamada depressão.

Tempos antes Francisco teve uma profunda depressão que o deixou prostrado numa rede por longos quatro anos. A depressão é uma doença que assola a humanidade e com grande incidência no pós-modernidade. É a dor da alma onde a pessoa se fecha em si mesma, esquece do mundo e perde a vontade de caminhar pela vida. Fica tudo cinza.

Há uma tradição no sertão onde toda criança possui três padrinhos. O padrinho, a madrinha e um terceiro; sendo este um santo ou uma santa. Nossa Senhora das Dores do Agreste era a santa madrinha de Francisco.

Um dia, como outro qualquer, onde a rotina comanda o tempo, aconteceu algo inesperado. A maioria das pessoas do lugar já não acreditava que Francisco viesse um dia a levantar-se daquela rede e voltar a ter uma vida normal. Mas Francisco levantou, tomou o rumo da igreja e lá entrou.

Horas depois retorna e teve o seguinte diálogo com sua mãe.

-“Mãe…” Disse Francisco. “Eu fui ter uma conversa com minha madrinha lá na igreja. E de hoje em diante eu não mais ficarei na rede e nem vou mais tomar remédios. Minha madrinha me curou.”

Mesmo espantada com a afirmação, a mãe de Francisco não levou muito à sério devido ao histórico de depressão, mas ainda assim ficou surpresa e esperançosa. Deixou ela que e a fé respondesse no tempo de Deus, dos anjos e santos, como se costuma dizer no sertão.

Os dias foram se passando e Francisco nunca mais voltou à rede a não ser para dormir o sono dos justos; não tomou mais remédios, não sofreu mais da dor da alma e faz mais de ano que aquele homem, considerado um morto-vivo, é um dos mais dispostos e produtivos camponeses do lugar. Quem conhece a história de Francisco diz que “esse aí não tem nenhum sinal de que teve depressão. Se contar ninguém acredita.” Afirmação mais comum sobre o caso dele.

O próprio Francisco confirma a história e credita a sua madrinha Nossa Senhora das Dores sua volta a vida.

Como diria o pároco na missa: “Por ambos testemunhos de fé, damos Graças a Deus.” Quem sou eu, um mero missivista, para duvidar das coisas da fé?

Você pode não acreditar. Sua religião pode ser outra que rejeita a fé nos santos. Pode ser você sem religião. Pode até não acreditar em Deus ou na Divindade. Enfim, mas ainda há muitos mistérios entre o Céu e a Terra que nossa vã filosofia possa dimensionar ou sequer explicar. Da fé espontânea e não comercializada faço gosto em contar o verso e deixar a prosa rolar.

Os muitos segredos de Agreste

Foram milhares de curtidas vindas de todos os lugares do Brasil e até do exterior querendo saber mais sobre Agreste ou mesmo para apenas dizer que teve alguma relação com a comunidade que, podemos dizer, no popular, seria hoje uma comunidade fantasma.

Muitos se dispuseram a fornecer material histórico para um futuro resgate do que foi uma das mais vivas e movimentadas comunidades de Quixelô (320 km de Fortaleza, CE).

Foi nessa região de caatinga preservada onde o gado vive solto, onde a vaquejada ainda pode ser feita como era antigamente chamada ‘a pega do boi erado’; onde nascem os bezerros que vivem sem a marca do ferro que eu fui descobrir um baú de histórias e de estórias pronto para ser desenterrado.

Para uns, coincidência, mas para outros um registro da fé em uma santa das dores, a Nossa Senhora que parece tratar da dor do corpo e da alma.

Agreste tem muitas histórias e outros tantos segredos. É mágica. É Quixelô.

 

Serviço:

Envie sua história sobre Agreste.

mrsucupira3@gmail.com

 

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SOCORRO – Conto em homenagem à Socorro Gomes

Por Natália Gomes Barreto (*)

SOCORRO

Socorro Gomes é um ícone de mudança na política de Quixelô que precocemente nos deixou. Mas o pouco tempo aqui desenvolveu um forte sentimento de mudança e justiça social que influenciou toda uma geração e que ajudou a eleger sua irmã Fátima Gomes prefeita do município, reeleita para 2017/2020 e que é considerada a melhor gestora municipal que Quixelô já teve.

O incessante barulho dos pássaros e o mugido do rebanho pareciam anunciar a hora de despertar e Maria acordava assim todos os dias; e todos os dias, como aquele sábado, pareciam ser sempre iguais para a menina. Maria era chamada de Socorro. Seus pais a chamavam assim desde que tinha nascido; aliás, todo mundo a chamava assim, seu nome de verdade era Maria Gomes, mas foi chamada de Socorro por causa de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, promessas que a mãe fez quando a menina nasceu e na hora de registrar no cartório, o pai esqueceu qual foi o santo benfeitor da promessa e colocou só Maria. Mas mesmo assim ficou sendo chamada por Socorro que era bem diferente das outras meninas, pois ela era uma das poucas “menina muié” da região da Vila em que morava, não sabia lidar com os afazeres domésticos, nasceu de família pobre- dessas de amanhecer o dia sem ter nada para comer – e nesse tipo de família a primeira tarefa que se aprende é ajudar a mãe nos trabalhos de casa, principalmente na Vila Antonico, como era chamada pelos habitantes. A Vila era uma comunidade de gente muito humilde – e tinha muito desses tipos de família – tinha gente de bem e de mal, homens trabalhadores e os que viviam a vida de malandragem, mulheres de respeito, sem respeito, fofoqueira. Vixe ! Tinha de tudo lá na Vila.

Socorro gostava de brincar, como uma criança normal, com seu irmão Francisco que era um rapazote bonito. Ele tinha uns dezesseis ou dezessete anos e sentia um carinho especial por Socorro que devia por ser a mais nova dos seis irmãos. Chico a protegia de qualquer peripécia que aprontasse. Ela era bem arteira, e o rapazinho quando não estava ajudando o pai na roça, passava o tempo a fazer brinquedos para a menina que estava sempre ao seu lado, fosse para comer, fosse para brincar, fosse para dormir; é que eles dormiam na mesma rede, porque seu Antônio, o pai deles, não tinha comprado, ainda, a rede de Chico que se rasgou de tão velha que era, pois já fazia uns seis meses e não tinha sobrado nem um trocado que desse para comprar a rede de Chico dormir.

Socorro era aplicada na escola, gostava de fazer cartas. As pessoas, que moravam por perto, lhe pediam para que escrevessem para os parentes que moravam distante e a menina fazia. Não era por ter apenas dez anos que lhe tratavam como criança, ela era diferente – já disse! -, tinha jeito de gente grande, se preocupava com os preços altos das mercadorias que seus pais não podiam pagar, se preocupava com as pessoas que não se consultavam por não ter médico no posto de saúde da Vila, entrava até nas conversas dos adultos, você acha que isso é coisa de criança?

É, realmente essa menina era de se admirar. Seus pais, Antônio e Clotilde, nem sabiam da grande virtude que Socorro era dotada. Eles eram analfabetos e não davam valor a esse tipo de gente, que quer saber de tudo, que fica se metendo em toda notícia que escuta no rádio, dando seus palpites em tudo que vê, que quer ser “gente” sem ser, isso não é coisa de criança e, principalmente, de menina muié. Seu Antônio sempre achava esquisito o jeito de Socorro; para ele, menina que crescia assim tava perdida na vida.

Imagine só, ele queria tirar Socorro da escola só porque lhe achava muito sabida, mas a menina – que de boba não tinha nada! – disse que não podia sair da escola, pois ela nem tinha aprendido as contas de somar e de vezes que o pai achava necessário e de bom tamanho aprender na escola, para “quando chegar o tempo da colheita do algodão, ela ir somando para saber quantos sacos eles tinham colhido”.

Socorro se viu na necessidade de mentir para o pai. Escondeu a verdade, ela já sabia das contas de soma e multiplicação, fazia tempo, e ainda mais: sabia até diminuir e dividir as contas que aparecia nos problemas da escola, mas com as constantes iminências que o pai fazia – que lhe tiraria da escola quando ela aprendesse calcular – a menina não podia dar sinais que soubesse tanto. Chegou até a pedir a sua professora que, na reunião de pais, dissesse à sua mãe que ela não tinha aprendido, ainda, matemática nenhuma.

A angústia que Socorro sentia, por esconder uma notícia que para ela era tão importante, era tamanha e ela, vez por outra, se pegava pensando em como e quando iria dizer ao pai toda a verdade, pois mentir para os pais era feio. Seu Antônio era para ela como um herói, um gigante, ou melhor, um Deus. Tinha aprendido, nas aulas de catecismo, que pecava quem mentia, roubava, matava, e principalmente, quem desobedecia a seus pais.

A menina se sentiu ainda mais aflita, quando viu seu pai, que não tinha nenhuma letra, ser enganado por um negociante, que veio até sua casa comprar todo o algodão que lhe rendera da colheita daquele ano. Socorro viu o comprador oferecer ao seu pai uma quantia que não valeria todo o algodão que tinha para vender; nem que fosse o pior algodão da região, o mais mortiço, ainda não valeria o preço que o homem pagaria ao pai. Era estranho o que acontecia, a menina em meio a toda aquela situação. Era como se o que estivesse presenciando fosse um pecado mortal, mas ela saberia lidar com toda aquela situação, mas não poderia fazer nada. Pensou Socorro em abordar o comprador e lhe pedir que repetisse a conta do algodão, porque sabia que não era justo enganar seu pai. Era como se as palavras do negociante entrassem como espinho em seus ouvidos e chegassem rasgando como uma flecha e transpassasse seu pequeno e ingênuo coração.

A cena era tão diferente de tudo o que a menina vivera até aquele momento. Ela, em meio a um ambiente de paz e tranquilidade, brincava de bila, de se esconder, de boneca feita de sabugo de milho e galinhazinha do tronco de pereiro, e, de repente, deparava-se com tanta injustiça. Todo o suor que viu seu pai derramar diariamente, no plantio e na colheita do algodão, seria limpo, agora, por aquelas poucas notas que não valeriam sequer uns três ou quatro meses de trabalho.

A cultura do algodão já foi o ouro branco de Quixelô

A menina, ouvindo com atenção a conversa do comprador, levantou-se lentamente da cadeirinha de madeira que o pai fez para ela na última semana santa e pediu educadamente que o homem repetisse aquela conta. Ela já tinha notado que ele era jeitoso para calotear e percebeu isto por causa da conversa bonita, dos arrumadinhos (característicos desse tipo de gente). Socorro tinha dessas, quando via gente desse tipo ou acreditava numa coisa, ninguém poderia lhe contrariar. Ela sentiu, ao dirigir a palavra aquele homem tão bem pronto, como se seu mundo começasse a se revolver, como se o mundo girasse. Já tinha se lembrado das inúmeras ameaças do pai de tirá-la da escola, mas conviver com aquela mentira, mesmo que fosse uma omissão e também para o seu bem, fazia se sentir culpada, pois para a menina era como se fosse um pecado, um defeito. Então, ela viu a oportunidade de livrar-se daquela culpa. Seu pai surpreso, sem entender a ação da filha, imediatamente pediu desculpas ao negociante e foi logo contornando a situação que Socorro lhe pusera, dizendo-lhe que não sabia mais o que fazer com ela, pois a cada dia que passava ficava mais astuta e essas coisas que ela falava ninguém poderia levar em apreço, pois na sua idade as crianças não sabiam direito o que diziam.

Esq para dir – Orlandinho (filho de Natália) Natália Gomes Barreto, Fátima Gomes (prefeita reeleita de Quixelô -Ce) e Estella Ellen Gomes (filha de Socorro Gomes). Foto na Solenidade de Diplomação dos Eleitos para o mandato de 2017 a 2020

Seu Antônio, envergonhado com o ocorrido, mandou Socorro entrar em casa lhe avisando logo da surra que ia levar, para deixar de se intrometer nas conversas de adulto. Socorro, com os olhos esbugalhados e verdes como eram, correu até a cozinha e pediu à sua mãe para dizer a seu Antônio que já tinha aprendido até mais do que uma simples conta; tinha aprendido a nunca mentir para uma pessoa tão importante para ela. Convencida, Clotilde correu até o alpendre, onde estava acontecendo a negociação, e, disfarçando o nervosismo, pediu a Antônio que entrasse em casa porque precisava dele para um serviço. Antes que entrasse na sala da frente, ela já foi lhe dizendo que ele não podia acreditar no homem, pois Socorro estava certa, a menina tinha toda razão de não confiar no comerciante, pois ela já tinha aprendido a fazer contas até demais e era pra ele confiar na menina ao menos uma vez. Aquela não era mais uma peripécia da garota, realmente poderia perder a metade do lucro da colheita daquele ano.

Antônio voltou ao alpendre onde ainda estava o homem, sentado já no banco de madeira que tinha ali por perto, acomodado e meio desconfiado, olhando por baixo e já sabendo que aquilo que estava fazendo não era uma das coisas mais certas de se fazer.  Mas ele vivia disso e já estava bem acostumado a calotear cabra besta e bruto como Seu Antônio. Foi assim, ao desconfiar da fineza do negociante, que pediu que voltasse outro dia para falar dessa proposta, pois naquela hora estava de cabeça quente e não sabia as contas de cabeça, mas ia ver se dava certo vendê-lo toda a colheita do algodão. O homem foi embora na certeza de voltar outro dia e comprar pelo mesmo preço que tinha oferecido antes e Antônio tinha a certeza que uma surra grande Socorro ia levar, por ter dado seus palpites nas conversas de adulto. Como sempre fazia!

Quando entrara em casa, o pai procurou a moleca que já tinha escapado da sova, correu por entre o matagal que rodeava a casa, onde ninguém pudesse encontrá-la. E, dessa forma, passou o resto do dia sem aparecer pelas redondezas, com medo da surra que o pai lhe prometera. Beirando às seis horas da tarde, ela aparece com os olhos inchados de chorar, barriga vazia, sem sequer um grão de arroz que pudesse lhe dar sustento. Entrou em casa pela porta dos fundos e, avistando o pai jantar por um buraco que tinha na parede da cozinha, começou a tremer, não sei se de fome ou de medo. A menina caiu em desmaio, sem que ninguém tivesse notado sua presença até então. Isto aconteceu somente com o barulho do corpo quando caiu no chão batido de barro que era o da velha cozinha de sua casa. Com o corpo estendido, o coração levemente latejante, ouvira longe, muito longe, o sussurro e o calor de seu pai estendido sobre seu colo, meio desacordada, pouco sem sentido, sentindo tudo que gostaria de sentir naquele momento: a mão leve de sua mãe a lhe apanhar a cabeça, e repousando-a em suas pernas, e o pai? Reorganizando tudo ao redor de si para lhe tornar aquele momento mais confortável. Já coberta com um lençol e afagada pelo casal, que fazia promessas à menina mesmo que ainda não totalmente consciente, mas ouviu (ou sonhou?) seu pai dizendo que não iria mais lhe tirar da escola e, verdadeiramente, ela não queria acordar, de jeito algum, do sonho inacreditável que tinha acabado de acontecer.

(*) Conto premiado em nono lugar em Assú – RN no “Escrínio da Literatura Potiguar”, I Concurso Assuense de Literatura – Celso Dantas da Silveira -Contos, Poesias e Trovas 2011; Coleção Assuense, vol. 18. Neste conto Natália adotou o psudônimo Estella Queiroz.

Natália é Pós graduada em Literatura Luso Brasileira, graduada em Letras pela UERN – Campus Avançado de Assú e professora em Quixelô.

 

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Agreste, Quixelô (CE) – A incrível história de uma comunidade nascida da fé

Igreja de Nossa Senhora das Dores do Agreste

Igreja de Nossa Senhora das Dores do Agreste

 

Sertão Central do Ceará, em algum dia de setembro de 1928, antes da data dedicada a Nossa Senhora das Dores, oito léguas depois de Iguatu, o silêncio da caatinga é interrompido pela ladainha de uma leva de tropeiros que estão a entoar cânticos repetidos em favor da fé. De terço na mão, seguem rumo a Agreste. Essa é uma viagem histórica que mudaria para sempre os rumos da comunidade.

Anos depois da Seca do Quinze, uma estiagem devastadora que matou milhões de pessoas pelo Nordeste, um homem leva na bagagem uma carga importante.

Ainda faltam quatro léguas para chegar a Agreste onde, finalmente, a imagem de Nossa Senhora das Dores irá tomar posse da igreja construída em sua homenagem.

Igreja de Nossa Senhora das Dores de Agreste

Já são três cansativos dias de viagem de volta de Iguatu, mas o sacrifício de alguns anos de luta para erguer o templo em homenagem a santa terá a sua missão completada. Além da imagem da santa, carregada por apenas um jumento com uma perfeita cruz desenhada de nascença às costas, estão outros carregando víveres e utensílios que a terra de Agreste não produz.

O mentor de toda essa ação de fé é Pedro Castro Lima que aos 40 anos está prestes a cumprir sua profissão de fé. Nascido em 1888, ano da Libertação dos Escravos, sua luta pela liberdade da alma continua.

Um dia depois chegam a Agreste e a santa ganha seu lugar no centro do altar envolta em grande festa e orações. Ao lado esquerdo dela está a Santo Antônio e à sua direita a Sagrada Família.

Um sino de bronze, bastante pesado, também foi colocado para poder chamar os fiéis para a missa. Agreste tinha água boa, uma igreja, muita fé e gente trabalhadeira. Estava pronta para crescer. Estava.

Voltemos a 2016: A Agreste de hoje.

Agreste era um lugar vivo, com muitas casas boas e muitas novenas, muita fartura em festas e leilões animados. Batizados eram constantes, crismas também. A fé ali tinha sua morada e missão, mas um dia, não se sabe por quê as pessoas foram morrendo e depois de 1956, ano da morte de Pedro Castro Lima, a coisas começaram a mudar definitivamente.

Ruínas de casarão ao fundo

 

As cidades cresceram no sentido contrário a Agreste e aos poucos a comunidade foi definhando, perdendo moradores e suas casas sendo abandonadas. Reza uma lenda que depois de uma morte em uma quermesse as coisas pioraram ainda mais.

Décadas depois o distrito de Bom Jesus de Quixelô, emancipa-se e passa a chamar-se Quixelô e Agreste passa a fazer parte dele. A sede, anteriormente Iguatu, que estava a três dias de caminhada, agora era Quixelô e estava bem mais perto. Assim as pessoas foram migrando para mais próximo da nova cidade, outras morrendo e as casas foram, aos poucos, sendo abandonadas.

Agreste começava a transformar-se em uma cidade-fantasma.

Dona Vanda

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Dona Vanda, a memória viva do lugar. Neta de Pedro Castro Lima

 

Atualmente Agreste tem uma comunidade que está a três quilômetros de onde está a igreja de Nossa Senhora das Dores, local onde foi erguido o antigo povoado.

O pequeno Luiz

Ao chegarmos onde residem as pessoas da nova Agreste, a porteira é aberta pelo pequeno e esperto Luiz e foi lá que encontramos dona Vanda, neta de Pedro Castro Lima. Aos 80 anos ela é a memória viva do lugar e entre um café e algumas fotos nos conta mais detalhes sobre a história de uma comunidade que de viva restou apenas a igreja e a fé das pessoas que lá ficaram.

 

A caixinha de guardar dinheiro e o baú de pertences

Dona Vanda nos mostra seu baú de pertences, a caixinha de guardar dinheiro que herdou de sua mãe e fala como criou os filhos no caldo do mugunzá. Diz ela que antes, as mulheres tinham que providenciar a comida e cuidar das coisas de casa, dos filhos, do marido e hoje, quando os maridos já trazem a comida da rua, pronta para fazer, ainda reclamam, pois “não sabem o que era o trabalho que dava para comer arroz que tinha que ser batido e peneirado para separar o grão da palha.” Destaca ela com muito bom humor.

 

Caminhando pela antiga Agreste

Agreste não tem mais que 25 pessoas morando na comunidade. Elas estão em um novo lugar, distante cerca de três quilômetros da igreja de Nossa Senhora das Dores do Agreste. Vivem da terra e da criação.

 

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A cerca de trezentos metros da igreja está o cemitério onde estão enterradas as pessoas do lugar e outras que morreram longe dali, mas que decidiram ser sepultadas no lugar onde nasceram. Na última cheia um sepultamento virou uma operação de guerra. Vários carros e balsas se juntaram para passar o caixão por vários alagamentos até que enfim chegasse a Agreste para ser sepultado.

À direita a cadeira do padre colocada no armador e que nunca mais saiu de lá

 

Logo perto da igreja, a uns oitenta metros, logo à esquerda, estão as ruínas da Casa Paroquial. Lá encontramos algo inusitado. Alguém, por um gesto de carinho ou de respeito, colocou a cadeira destinada ao padre pendurada no armador de madeira e de lá nunca mais saiu.

Quando cheguei à Agreste nos deparamos com a natureza da caatinga com gaviões, galos-campina, rolinhas e jandaias no ninho criando seus filhotes.

Barragem do açude Maracajá feito em tijolo cozido

 

Depois que passei da última casa da Agreste velha fiz a volta em uma barragem muito antiga, chamado de açude Maracajá, feita ainda de tijolos de barro cozido, algo medieval e que dura até hoje. Esta barragem de mais de dez metros de altura e outros cinco de largura, desde que acumulou água pela primeira vez, só esteve totalmente seca por duas vezes. Uma delas agora em 2016.

O sino roubado

O sino

Mas Agreste não iria sofrer apenas com perda de seus vizinhos. Quase perderam o sino, também. Conta dona Vanda que certo dia um carro encosta ao lado da igreja e roubam o sino e a madeira de lei que cobria a mesa do altar. Dias depois o sino estava sendo vendido na feira de Iguatu, quando um devoto de Nossa Senhora das Dores reconheceu a peça e a pegou de volta. Do tampo do altar nunca mais se teve notícia, pois perdeu-se para sempre.

A guardiã de Agreste

Valnice também é animadora da comunidade

O patrimônio da fé possui uma guardiã. Chama-se dona Valnice que também é animadora da comunidade. A igreja pertence à Paróquia Bom Jesus Piedoso de Quixelô que é subordinada à Diocese de Iguatu.

Valnice abriu a igreja para que pudesse ver por dentro e de perto a imagem de Nossa Senhora das Dores que aos 88 anos já passou por pelo menos uma restauração. Entrar na igreja me trouxe

Nossa Senhora das Dores de Agreste

uma energia boa. Pude buscar o sentimento que Pedro Castro Lima teve ao ver aquilo tudo pronto depois de tanto sacrifício pessoal. Não resisti a doce tentação de tocar naquela imagem que veio em lombo de jumento em três dias de viagem, nas doze léguas percorridas e que viu a vida chegar e depois ir embora, ficando apenas alguns poucos devotos e uma animadora a proteger toda essa história.

Tudo vivo, mas sem pessoas

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Era hora de voltar, pois já estava no avançado da hora. No retorno passamos pelas mais de cinco grandes casas abandonadas, algumas de portas e janelas abertas, como se ainda morassem pessoas lá. Em outras, as vacas pastavam ao lado da casa. Parecia tudo vivo, só não haviam pessoas. No caminho passamos por jumentos e ao lado, no alto, as jandaias estavam lá cuidando dos seus filhotes. Tudo vivo. Muito vivo, mas sem pessoas.

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Agreste hoje ganha vida em duas datas importantes mantidas pela Diocese de Iguatu. É o dia de Nossa Senhora das Dores comemorado em 15 de Setembro e o Dia de Finados em 2 de Novembro. Nas duas datas missas são realizadas, mas sem tanta pompa e circunstância como de outros tempos atrás.

Mas a luta de Pedro Castro Lima não se encerra com os desvios de rumo do progresso e nem com a migração das pessoas de Agreste. Ela continua na fé de Nossa Senhora das Dores na luta pela liberdade da alma em busca da mais perfeita vida: a Eterna.

Agreste é mágica. Agreste é Quixelô.

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