Marxismo cultural ou a burrice ideológica de direita

Marxismo cultural ou a burrice ideológica de direita

O maior problema da direita no Brasil é ser desonesta, tanto intelectualmente como em todos os sentidos. Isso está em seus vídeos, discursos e nos livros sem nenhum valor acadêmico que eles lançam quase diariamente.

Para tomarmos um exemplo, Leandro Narloch usou o historiador inglês Ian Kershaw para dizer que Hitler era socialista citando a mesma obra em que Kershaw diz exatamente e categoricamente o contrário. Só por essa adulteração cínica, seu livro deveria ser banido do mercado editorial.

Em editorial na Folha de SP em 2013[1], Idelber Avelar, professor de literatura em Tulane, nos Estados Unidos, destruiu o Guia Politicamente Incorreto da história do mundode Narloch afirmando que o autor faz “simplismo atroz”, que ele chega ao “limite do mau gosto”, é tão ideológico quanto a ideologia que pretende criticar e é “superficial” quando fala de nazismo e comunismo.

Qualquer estudante secundarista minimamente informado e que leia o livro de Narloch verá o quanto a crítica de Avelar é certeira. Narloch não é historiador, nunca realizou qualquer pesquisa na área e é jornalista da Veja. Ora, todo jornalista da Veja é um militante pago e se eles não fazem bom jornalismo é de se esperar que seus livros também sejam a mesma coisa.

Agora é senso comum na direita falar em “marxismo cultural”. De forma resumida, eles entendem que seria como uma ação conjunta de governos e instituições para demolir os valores do Cristianismo e impor um relativismo cultural e leis a favor do aborto, do casamento homoafetivo, da pedofilia, entre outras coisas, além de um controle estatal da economia e da cultura que implantaria o comunismo paulatinamente sem necessidade de uma revolução proletária. Tudo isso teria inspiração em autores tão distintos como Gramsci, a Escola de Frankfurt, Foucault e outros. Para eles, o PT já estaria fazendo isso no Brasil.

É uma teoria no mínimo muito criativa e engraçada, é preciso admitir. Fora isso, não passa de um expediente conspiratório patético e infundado. Mesmo assim, tem ganhado adeptos entre turbas enormes de gente inculta que lê autor que nunca passou da terceira série primária, Veja, apoia Bolsonaro, MBL ou segue canais de gente débil mental como Nando Moura e padre Paulo Ricardo.

Pra quem é escolarizado, é desnecessário dizer que não existe e nunca existiu marxismo cultural. A Escola de Frankfurt foi fundada em 1923 pelo economista austríaco Carl Grunberg. Foi iniciada como um Instituto para a pesquisa social e na primeira fase objetivava desenvolver pesquisas sobre o movimento operário e o socialismo. A partir de 1931 foi dirigida por Max Horkheimer e agregava intelectuais de influências distintas como Adorno, Walter Benjamin e Erich Fromm. A Escola passou por momentos diversificados; o mais conhecido diz respeito aos trabalhos desenvolvidos a partir da década de 1940, que tinha como eixo central a crítica da civilização técnica. A partir desse momento a reflexão teórica se afasta do marxismo revolucionário para analisar questões como o totalitarismo, a uniformização dos indivíduos ou a liberdade de ação na história.

Não havia unidade de pensamento na Escola de Frankfurt, mas alguns traços gerais se destacavam como a crítica à racionalidade histórica na abordagem hegeliana e marxista e a crítica à noção de progresso no pensamento moderno.

Gramsci, tão odiado por nossa direita inculta como uma espécie de Nostradamus comunista, uma mente onisciente que conseguiu prever o futuro com décadas de antecedência, foi um autor muito lido no Brasil nos anos 80 e até início dos 90, mas hoje relegado a um plano secundário. Por fim, Foucault não era marxista.

Marx, marxismo, comunismo. A direita atribui a isso uma importância que não possui em nossa sociedade nem nas universidades. Não existem mais países comunistas, movimentos, partidos nem lideranças comunistas. Não importa. A demonização do PT nos últimos anos contribuiu para que essa demência se espalhasse tão rapidamente na internet como a lama da Samarco no rio Doce e não é preciso estudar nada pra falar algo a respeito, é só repetir alguns lugares-comuns e ser aclamado nas redes sociais. É o caso de Kim Kataguiri, um menino secundarista que um jornal desesperado por assinantes chamou para ser colunista. Hoje, o anti-petismo dá ibope, não importa o quanto prosaico ele seja e é por isso que Kim está na Folha.

Em novembro de 2015, Kataguiri deu uma entrevista para o portal DW Brasil[2]afirmando que nunca apoiou Eduardo Cunha (o que todos sabem ser mentira) e mostrou o quanto sofre de confusão mental: ele quer a privatização da educação mas critica o governo por ter reduzido o repasse de verbas para a educação. Ele quer privatização de empresas estatais e quando o entrevistador expôs a importância da participação do governo na reestruturação da economia norte-americana, ele engasgou e tergiversou. O fato de Kataguiri ter sido elevado a líder dessa direita apenas deixa claro que esse movimento não tem norte, não tem referenciais, nem qualquer coerência de ideias.

A direita no Brasil não tem um conjunto de princípios definidos, sua agenda é toda anti-petista e sua retórica gravita em torno de um projeto de desconstrução: das políticas sociais, das conquistas das minorias, dos direitos trabalhistas e do papel do Estado na economia. Qualquer um que se levante contra a “ameaça comunista” no Brasil, não importa o que mais possa dizer, é aclamado como líder. É o caso de Bolsonaro. Eles não se preocupam com racismo, concentração de renda, desigualdades regionais, ausência de políticas públicas eficientes. Ao contrário, eles endossam tudo isso.

A direita aqui não tem um rosto definido, mas não quer ver o negro entrar na universidade por cota nem o pobre receber bolsa família e tem medo da discussão de gênero nas escolas. Historicamente, apenas o rico recebeu benefícios da máquina pública no Brasil e todo o ódio dessas pessoas ao PT não é ódio à corrupção, mas principalmente contra as políticas sociais, que foi exatamente o que o PT fez de certo.

Essa direita quer ser liberal mas só quer ler Mises, um autor que ocupa um lugar marginal na história do pensamento liberal e foi apenas um divulgador prosaico do liberalismo. Há um desprezo notável deles pelo saber acadêmico e seu gesto de abandonar o debate qualificado nesse espaço para vociferar insultos ou teorias conspiratórias na internet é um indicativo de que não querem realizar nenhum trabalho sério, como de fato não realizam.

Eles querem imitar certa direita dos Estados Unidos, mas nem como copiadores do Tea Party conseguem se sair bem. Eles não entendem, por exemplo, que políticas sociais e para minorias que eles chamam de “marxismo cultural” são de caráter social-democrata e também estão relacionadas a um pensamento político liberal que tem origem nos Estados Unidos. E não entendem porque não estudam. Nos territórios que essas pessoas circulam nada precisa ser provado e tudo pode ser dito e acreditado. Para usar um termo de Avelar, a desonestidade desses indivíduos chega ao limite do mau gosto.

O caso dessas pessoas não é para refutação, é o caso de mandá-los de volta para o ensino fundamental. Às vezes é caso de polícia também.

Notas

[1]http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/08/1327620-opiniao-trabalho-e-tao-ideologico-quanto-a-ideologia-que-quer-combater.shtml

[2]http://www.dw.com/pt/nunca-fomos-aliados-de-cunha-afirma-ativista-kim-kataguiri/a-18833306

Leia também: 

Por que Marx ainda assusta os conservadores?

Marx ontem e hoje 

Irracionalismos da direita brasileira

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.