Como um simples recolhimento de um sagui doente expos grandes falhas da Polícia Ambiental do Ceará.

O animal doente teve que ser resgatado e encaminhado ao Ibama por ambientalistas.

Sagui do Tufo Branco em seu habitat

Sagui do Tufo Branco em seu habitat

No condomínio onde moramos, Aquiraz, Ceará – distante 28 km de Fortaleza costumo dizer que é o sonho de toda cidade que um dia se tornou grande. Temos muito verde, natureza exuberante, não temos muros e temos um microecosistema que tem de tudo um pouco. De frutas, flores e fauna. Borboletas, pássaros, cassacos, iguanas e sagui ou soins – como queiram.

Era uma sexta-feira, mais precisamente dia 14 de janeiro de 2011 quando um desses saguis (soim) foi encontrado deitado embaixo do fogão da casa do casal de amigos, Joseph e Imaculada Bastos. Joseph coma ajuda de Lucas, meu enteado, o capturaram e o levaram de volta a uma mangueira onde eles sempre costumam aperecer.

Os saguis são animais típicos do Nordeste Brasileiro. A espécie em particular é O sagüi-de-tufos-brancos (Callithrix jacchus) um macaco do Novo Mundo. Habita a caatinga e o cerrado, em formações arbóreas baixas. Mas se adaptam muito bem em outras formações florestais e em áreas urbanas. São animais agitados e curiosos, podendo se tornar agressivos caso se sintam ameaçados. Podem se contaminar com doenças comuns a animais domésticos nas áreas urbanas, inclusive havendo a possibilidade de se tornarem agentes transmissores de raiva. Tem hábitos diurnos e costumam viver em grupos. Raramente descem ao solo. São adaptados à vida saltatória arbórea, com locomoção vertical pelos troncos.

 O sagüi-de-tufos-brancos (Callithrix jacchus)

O sagüi-de-tufos-brancos (Callithrix jacchus)

Isso chamou nossa atenção e nos deixou preocupados. Mesmo assim o colocamos de volta na árvore. Horas depois ele estava de volta ao chão e deitado. Parecia um bebê dormindo. Foi nessa hora que perceberam que estava doente. Minha esposa, Maria, logo pegoua  gaiola do gato e com luvas de borracha cedidas pelo Joseph começou a alimentá-lo e a hidratá-lo. Ele parecia machucado e com a boca e parte dos olhos muito irritada. Não haviam ferimentos no corpo. O guardamos.

No dia seguinte entramos em contato com o veterinário do Leno, nosso gato, que mora perto de nós ficamos sabendo que o tratamento dessa espécie deve ser feito pelo pessoal do Ibama que é especializado. Mesmo assim conseguimos identificar a doença que ao que tudo indicava seria herpes T.  Essa doença pode matar um sagui em quatro ou seis dias e deve ser tratada por equipe especializada.

Sabendo disso entramos em contato com a Polícia Ambiental do Ceará para saber como proceder. O atendimento foi rápido e a solução veio logo. Anotaram o endereço e informaram que viriam buscar o sagui ainda no sábado para encaminhar ao Ibama – local onde cuidam da triagem de animais silvestres. Mas não vieram.

O estado do sagui

O estado do sagui

Passaram-se três dias e apesar das promessas da Polícia Ambiental do Ceará de vir buscar o animal, ninguém apareceu. Neste tempo estávamos o mantendo alimentado e em uma espécie de quarentena. Afastamos as crianças e o isolamos da casa para evitar maiores problemas com qualquer tipo de contágio. No domingo, o pessoal do site www.biotabrasil.com.br tomou conhecimento do fato via Facebook e veio nos ajudar. Começou junto comigo a exigir um posicionamento da Polícia Ambiental que a toda hora dava desculpas. A primeira foi que tinham que recolher pássaros que estavam em cativeiro e isso demorava muito pois tinham que ir a uma delegacia e tome burocracia. A segunda desculpa foi que não encontraram o endereço. Enquanto nada acontecia para fazer com que o animal fosse conduzido ao Ibama, Maria o alimentava duas vezes por dia com um soro a base de leite e água. Trocava os panos e limpava a gaiola.

Terça-feira, o pessoal do Biota veio buscar o animal, pois estavam preocupados com a sua sobrevivência. O sagui até que estava um pouco mais esperto, mas ainda muito debilitado. Chegou a ter uma espécie de convulsão. O animal foi entregue á tarde no Centro de Triagem do Ibama que o catalogou e foi imediatamente posto em tratamento. Se sobreviver deverá ser solto nas florestas protegidas pelo Ibama. Caso venha a morrer será mais fato que mostra o descaso e o desrespeito daqueles que são pagos para servir a comunidade.

Infelizmente a Polícia Ambiental do Ceará deixou a desejar e muito ao não aparecer, não dar satisfações e muito menos cumprir o seu papel. Cabe a quem ler este relato, autoridade ou não, se cobrar uma posição, digo, uma postura correta de atendimento, pois de nada vale e muito pouco adianta investir em recursos de qualidade e em ótimas viaturas e equipamentos se o pessoal é despreparado para atender a uma simples ocorrência. Bastava vir e recolher o animal e entregá-lo ao IBAMA. Apenas isso.

Se não fosse o pessoal do Biota Brasil e a minha Maria com certeza este pequeno sagui a esta hora estaria sendo enterrado.

Se não fosse o pessoal do Biota Brasil e a minha Maria com certeza este pequeno sagui a esta hora estaria sendo enterrado.

Se não fosse o pessoal do Biota Brasil e a minha Maria com certeza este pequeno sagui a esta hora estaria sendo enterrado. As crianças do condomínio vinham todo dia ver como estava o pequeno primata e saber por que a Polícia não veio buscar. Hoje, quando o Biota levou para o Ibama e eles ficaram sabendo ficaram felizes, mas não deixaram de perguntar: -“Tio, ele vai voltar pra cá, né?” Não meninos, se ele ficar bom, ele vai para outra casa também cheia de amiguinhos dele. Quem sabe um dia, se ele achar o caminho de volta apareça aqui.

Todos nós somos animais e quando doentes precisamos de cuidados e é para isso que pagamos impostos. Se fazem pior com as pessoas, o que dirá com os animais. Apesar de não ter sido nenhuma novidade para mim, confesso que fiquei com aquela esperança de brasileiro de, pelo menos uma vez, dizer que não pude me decepcionar. Porém, dessa vez, a exceção não conseguiu fugir à regra e mais uma vez fomos nós os cidadãos que tivemos que resolver uma situação que era uma obrigação simples do poder público tão acostumado com o desserviço.

Por Luis Sucupira
Blogueiro e colunista do Biota Brasil

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