A guerreira quixelô chamada Fátima Gomes

A guerreira quixelô chamada Fátima Gomes




dsc_0016Quando os ventos pioram o pessimista reclama e o otimista espera que melhorem. Já as lendas arrumam as velas do barco e seguem navegando.

A história de Fátima Gomes reflete o perfil de uma mulher guerreira que não reclama, não desiste e acima de tudo: continua lutando. A saga da professora, perseguida pelos coronéis de uma região do Nordeste Brasileiro, que perdeu a irmã; ativista política e militante, vítima de câncer fulminante e, que, mais tarde virou prefeita, em uma pequena cidade, daria um bom roteiro para um daqueles filmes de arte que abordam a vida de pessoas que saem de um anonimato profundo para mudar a história de um lugar carente.

O que pareceria e mereceria um roteiro, não era ficção. Era uma realidade que a população de Quixelô viveu e conviveu com ela.

lula1Fátima foi perseguida por ser uma potencial ameaça à hegemonia de um grupo político que, encapado sob o manto da impunidade, sugava e sugou, o que puderam de um município pobre e carente de tudo. Até de carinho.

Mas quis o destino que Fátima Gomes fosse colocada à prova. E lá foi ela disputar uma campanha eleitoral contra aqueles que já eram seus algozes. A corajosa professora, entrou na campanha com muita vontade de mudar a vida das pessoas, mas com poucas chances de vir a ser o mandatário maior da sua terra.

A campanha evoluiu com a ajuda de muitos dos seus guerreiros que embalavam o sonho de liberdade e mudanças. No dia da apuração, nada era certo. Mesmo o mais otimista apostaria baixo, pois era uma vitória praticamente improvável. Quando a apuração foi concluída Fátima Gomes estava eleita. Um misto de felicidade e incredulidade fez dos sorrisos, lágrimas de alívio e esperança. Era o choro de felicidade. O choro da vida que abre a estreia de cada criança neste mundo.

Mas a alegria durou pouco…

Inexperiente, Fátima sofreu com a maldade dos seus adversários derrotados. A chegada a prefeitura foi traumática e desestimulante. Fátima encontrou todos os computadores apagados e formatados. Tudo teve que ser remontado e os computadores, restaurados.

dsc_0340Fátima não reclamou. Levantou a cabeça e junto com sua equipe, seguiu em frente. Começou a arrumar a casa. Quando tudo parecia caminhar bem vieram as dívidas da gestão anterior que bateram a casa dos nove milhões de reais. INSS, restos a pagar, enfim, muitos débitos e obras mal feitas e inacabadas que ficaram como herança maldita.

O que seria motivo para esmorecer, transformou-se em motivação e força para fazer dar certo. As coisas começavam a se encaixar e a máquina andava ainda lenta quando a maior seca de todos os tempos no Nordeste Brasileiro ameaçava deixar sem água a maioria do município de Quixelô. Além da falta de dinheiro e muitas dívidas, Fátima se deparava com o pior pesadelo de um gestor nordestino: a falta d’água.

Fátima ganhou o mundo e bateu em todas as portas até que conseguiu convencer vários parlamentares a ajudar a nação Quixelô. O dinheiro veio e foi muito bem aplicado.

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Enquanto pagava dívidas e acelerava a máquina pública com um choque de gestão, Fátima Gomes buscava implementar com muita rapidez as mais de 40 obras que entregaria ao fim de três anos e oito meses.

dsc_0554Mas Fátima Gomes não é apenas a professora perseguida e inexperiente que virou prefeita. Ela tem um coração e a vocação dos grandes líderes que mudam o rumo do seu povo quando são chamados à responsabilidade e ao sacrifício.

O grande coração de Fátima, assumiu como sua, a filha da irmã falecida, Socorro Gomes, e também mais de trezentas crianças com necessidades especiais que eram criadas sem ajuda especializada, algumas delas amarradas às correntes. Hoje estas crianças têm tratamento digno de verdadeiros seres humanos.

Quando recebi a ligação para ajudar na campanha de Fátima Gomes à reeleição vim a viagem toda acordado conversando com o motorista da ambulância, na qual peguei carona, e que faz, junto com um micro-ônibus o trajeto, quase que diário, transportando pessoas, com bom conforto para que possam ter atendimento digno, na capital.

Falar de Fátima é falar de surpresas. Boas surpresas. Cheguei à cidade e tive que ser rápido, pois havia muita demanda reprimida e muitas ações que estavam atrasadas e o tempo era o nosso maior inimigo. Mas Fátima parecia tranquila.

Começamos a trabalhar e descobrimos que as mais de 40 obras e outras tantas ações eram do quase total desconhecimento da população. Foi ai que percebi que eu tinha um grande problema: precisava fazer tudo o que não foi divulgado suficientemente em quatro anos, em apenas 30 dias. Assim, eu e Ricardo Azevedo, meu parceiro, viramos a primeira de muitas noites. Foram mais de 510 horas de trabalho e mais de 50 vídeos e outras dezenas de peças de divulgação e ainda 40 horas de gravações de reuniões comícios. Mas o esforço parecia não ser o bastante. Não havia tempo.

Enquanto isso, Fátima Gomes visitava e administrava a cidade, pois era a prefeita.

Outra surpresa me emocionou. Fui à casa da prefeita falar com ela sobre um determinado assunto, ao qual não lembro agora o que seria. O assunto apagou-se da minha memória ao ver a simplicidade e parcimônia de Fátima. Foi inevitável não lembrar do meu saudoso avô, comendador da Santa Sé, Luis Sucupira, que andava de bicicleta quando era deputado federal constituinte de 1932 e governador do Ceará na época de Getúlio Vargas. A gasolina do carro oficial era entregue à Santa Casa de Misericórdia de Fortaleza. Nesse momento eu entendi que eu não estava diante de uma cliente que queria continuar prefeita, mas de uma líder popular que vivia daquilo que recebia. Até seu carro, já bem usado, me lembrou Mojica, o ex-presidente da República Oriental do Uruguai, que andava em um velho fusca.

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A caixa de boas surpresas chamada Fátima Gomes passava a ser algo que precisava ser entendido. Mais ainda, ser fotografada. Sempre que podia buscava tentar captar essa alma boa durante as reuniões. Mas no palco me aparecia apenas a guerreira. Foi no chão, acompanhando ela no meio do povo que eu consegui extrair a grande Fafá (como Fátima Gomes é carinhosamente chamada). As crianças corriam para abraçá-la e o resto do mundo também. A mim coube, apenas, registrar esses momentos em fotos que falam por si só.

dsc_0768Mas ainda havia outra Fátima Gomes. Aquela que tinha pulso firme e nenhum medo. Os adversários a provocavam e ela respondia duro. Mas aquela mulher de fibra e de muita coragem chorou ao ser abraçada por Lula e, em meio a emoção, chegou a dizer-lhe ao pé-de-ouvido: “Lula, aguente um pouco mais. Nós precisamos muito de você!”

Vi e acompanhei de perto todo esse processo de reeleição de Fátima Gomes. Toda as dificuldades e medos. Mas ela nunca se abalou.

No sábado, véspera da eleição, consegui finalmente acompanhá-la e ter mais uma surpresa. O sol estava cruel e o calor sufocante piorava ainda mais pelo pouco vento que soprava, mas todas as casas foram visitadas e ela disputava cada voto conversando com cada morador. Pude registrar a humildade e a lisura de Fátima Gomes, mesmo diante de eleitores que queriam vender o voto. Isso ocorreu umas três vezes e ela, com bastante educação, firmeza e dignidade, descartava a proposta e buscava convencer que voto não tinha preço, tinha consequência e que era contra essas consequências que ela estava lutando há mais de três anos e oito meses.

Almoçamos rapidamente e voltamos à estrada. O sol não perdoava. Numa dessas visitas encontramos um senhor que na eleição passada havia dito a ela que sairia vencedora. Desta vez ele disse que não seria fácil, mas ela venceria. Dia seguinte ficamos sabendo que ele havia falecido.

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Não dormi do sábado para o domingo. Não havia tempo para banho e sequer comer. Acabei a saga da véspera da eleição sentado às seis e cinquenta da manhã no sofá da casa da prefeita onde, exausto, acabei dormindo por cerca de meia hora. Eu estava ali para gravar o seu voto que seria numa escola do Antonico. E eis que de repente surge a prefeita com um café feito por ela mesma nos chamando: “Bom dia, meus guerreiros!”

Quando ela soube que não havíamos dormido, puxou nossas orelhas, mas sorriu. Pouco tempo depois estávamos com ela aguardando na fila para votar. Em seguida pude, enfim, tomar banho e me livrar das roupas que me acompanharam pelas trinta horas de luta.

O resultado final da eleição colocou Fátima de novo nos braços do povo. Ela estava emocionada. Lembrei do Joaquim Alves, o prefeito do FAE, cuja história emocionou tanta gente, inclusive a mim. Depois da festa da vitória, ocorrida na noite de segunda, Fátima ainda reservaria uma última surpresa. A acompanhei na missa pelo Dia de São Francisco e só aqui, neste momento, o enigma Fátima Gomes seria decifrado. O modelo franciscano adotado por ela justificava a empatia e a devoção ao santo que mais se assemelha em personalidade ao que Cristo nos ensinou.

Foi então que percebi que no cordão de fé que Fátima Gomes leva consigo, semelhante ao que Francisco de Assis – o santo, usava na cintura do hábito; os três nós significam, cada um: humildade, amor pelo seu povo e coragem.

Feliz aniversário, Fátima Gomes.

Que Deus à abençoe!

 

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Por Luis Sucupira

Jornalista, escritor e coordenador da comunicação da campanha de reeleição de Fátima Gomes

 

 

5 comments on “A guerreira quixelô chamada Fátima Gomes
  1. Patricia Neilla Diniz disse:

    Excelente texto! . Parabéns!

  2. Maria de Fátima Oliveira da Silva disse:

    Fátima Gomes Deus te abençoe grandemente pois vc merece a Vitória por ser essa pessoa humildade continue sempre q Deus te dará sempre Vitória abençoado

  3. Maria de Fátima Oliveira da Silva disse:

    Fátima Gomes uma mulher admiravel,humildes simples

  4. Maria de Fátima Oliveira da Silva disse:

    Fátima Gomes um verdadeira guerreira

  5. Maria de Fátima Oliveira da Silva disse:

    Corajosa e Guerreira mulher admirável

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