Feito “nas coxas”. De onde vem o nosso hábito de fazer arranjos?

De onde vem o nosso hábito de fazer arranjos? E o que perdemos e ganhamos com isso?

Nas minhas merecidas férias eu costumo cumprir à risca duas coisas: divertir-me e acumular mais conhecimento. Nada melhor para isso que viajar de carro ou de moto, conversar e ouvir muito. Nessa última viagem aprendi a origem do termo ‘feito nas coxas’.

Visitando a Fortaleza de Santa Catarina (uma bela fortificação com mais 300 anos de construída) , no Estado da Paraíba, Praia de Cabedelo, o guia de nome Joseílton mostrava a bela construção em todos os seus detalhes. Sempre falante e com muita informação, o guia explicou como foram fabricadas as telhas que substituíram o telhado de palha da primeira versão da Fortaleza. Segundo ele, não havia fôrma para moldar o barro em telha. Ato contínuo, alguém teve a idéia de moldar as telhas nas coxas dos escravos. Funcionou!

Telha-a-telha, coxa-a-coxa o telhado foi sendo recoberto. Mas apareceu um outro problema: como eram vários escravos moldando as telhas nas coxas e as coxas eram de tamanhos diferentes, o comandante do forte teve que resolver outro problema: como encaixar telhas de tamanhos diferentes? Primeira solução foi fazer um telhado tríplice com eira, beira e sobeira (antigamente o estado social do dono de uma casa era medido pelo telhado. Com eira e beira era bem de vida. Com sobeira era muito rico ou muito importante).

Depois escolher três escravos ou seis coxas, com medidas semelhantes para reduzir ao máximo a diferença, a obra recomeçou. Mais um problema resolvido. O que era para ser apenas uma fileira de telhas teve que ter pelo menos três e, entre elas, foi posta a argamassa que, compactada, igualava o telhado. Ainda tiveram que ajustar os caibros e as ripas para poderem suportar tanto peso.

Final da história: o problema foi resolvido, o telhado foi feito, mas perderam muito tempo, gastaram três vezes mais massa, madeira e barro e quase mataram três escravos de tanto fazer telha nas coxas.

Assim, até hoje, o termo ‘feito nas coxas’ é designado para coisas produzidas sob a égide do arranjo e do improviso e, mesmo dotadas de boa dose de criatividade, acaba se transformando em um grande problema. É o mesmo que juntar muita gente para melhorar um cavalo. Com certeza, se for ‘feito nas coxas’ esse cavalo melhorado se transformará numa girafa.

No meu dia-a-dia vejo muitas dessas coisas. Pior que tentar resolver um problema é multiplicar uma solução trabalhosa ou pouco eficiente. Chamo isso de ‘Maria-vai-com-as-outras’. O ‘Maria-vai-com-as-outras’ sempre vem depois do ‘feito nas coxas’ é o que chamamos hoje de ‘transferência de conhecimento’ ou de ‘tecnologia embarcada’.

Nos treinamentos que tenho a grata oportunidade de ministrar (pois sempre aprendo mais que ensino) mostro situações onde o ‘feito nas coxas’ vira um ‘Maria-vai-com-as-outras’.

No campo do aterramento descobri várias formas intrigantes dessas tentativas. A revista Setor Elétrico havia divulgado que 87% dos domicílios levaria nota ‘ZERO’ em aterramento e o restante (13%) levaria nota ‘UM’. Até ai nenhuma novidade, mas vejam as soluções que descobrimos: Preguinho na parede, barra de cobre chumbada da parede, fio terra ligado à canos(tubulação de água) de cobre ou de ferro, aterramento portátil feito com lata de leite em pó, fio terra ligado no neutro do prédio, fio terra ligado ao vergalhão do prédio.

Fiquei curioso a respeito do assunto e fui conversar com vários especialistas sobre o tema. Apesar de parecer uma gozação eu pedi uma explicação séria o porquê de não funcionar. Confesso que ri bastante. Eu também já havia realizado algumas destas experiências. Foi essa curiosidade que me fez aprender 5 formas de como não fazer um aterramento.

Thomas Edson, na tentativa número 1000 ouviu de um de seus amigos que ele deveria ‘desistir’ de tentar inventar a lâmpada, pois tentara mil vezes e não conseguira. Edson respondeu que descobrira 1000 maneiras de ‘não fazer’ uma lâmpada. Poucas tentativas depois ele iria conseguir. Os amigos especialistas, pacientemente, me explicaram de uma forma muito interessante e fácil de entender.

Preguinho na parede

: Não funciona. Os materiais que compõem a parede não garantem uma condução eficiente da eletricidade estática ou da sobra de energia ( spikes ou picos). Contou-me um engenheiro que o leigo ‘piorou’ isso utilizando bucha e parafuso de alumínio para não machucar o reboco da parede.

Barra de cobre chumbada da parede

: Mesmo problema do preguinho na parede. Portanto a única utilidade dessa vara sepultada na parede é mesmo ligar nada a coisa nenhuma, mesmo que ela esteja encostada no vergalhão.

Fio terra ligado à canos(tubulação de água) de cobre ou de ferro

: Imagine você que a água pode conduzir energia e que toda a tubulação dessa casa se comunica de alguma forma. Alguém vai tomar banho e literalmente leva um choque. Imagine quantas pessoas quase morreram ou se acidentaram gravemente? Depois descobri que choques elétricos já são a terceira causa mortis em pessoas de 0 a 14 anos de idade.

Aterramento portátil feito com lata de leite em pó

: Essa é brilhante! Você pega uma lata de leite em pó integral da marca Nestlé, pois segundo o manual da tecnologia ‘embarcada’ (Maria-vai-com-as-outras) a lata do instantâneo e o leite de outra marca não funcionam. Depois você pega areia de rio virgem (????? Como saber se é virgem?????) , pois a colorida de aquário não funciona. Complete com água até a metade e insira um fio 10 branco, pois o preto não serve (apesar de só mudar a pigmentação da capa do fio) . E por último ligue a outra ponta em um dos parafusos existentes na traseira do computador. Pronto, o seu terra portátil está ativado. Bom…. Três meses depois sua máquina, com a ajuda dos coolers estará oxidada e a lata… bom… o latão vai ser corroído e quando precisar mover o seu terra, o conteúdo da lata, ficará espalhado pela casa, pois o fundo dela vai cair.

Fio terra ligado no neutro do prédio

: Aquele fio serve para equipamentos movidos a motores elétricos e para o pára-raios. Equipamentos eletrônicos não suportam esses tipos de ruídos. Segundo meu amigo é o ‘mesmo que ligar o cano da fossa com o da água de beber’.

Fio terra ligado ao vergalhão do prédio

: Nada garante que o vergalhão do quinto andar de um prédio com 10 andares tenha comunicação com a terra que fica no subsolo. Portanto mais uma inutilidade para o lar.

Assim aprendemos que ‘feito nas coxas’ não é garantia de eficiência e o seu efeito colateral, o ‘Maria-vai-com-as-outras’, serve apenas para multiplicar um erro. Numa dessas viagens vi (em vários estados) garrafas plásticas de refrigerantes sendo colocadas, cheias de água, em cima dos relógios de medição de uso de energia elétrica, sob o pretexto de que ajudaria a economizar energia. Com certeza! Uma hora esse plástico vazaria a água para dentro do relógio e, um curto-circuito, iria deixar a casa às escuras, por alguns dias ou pelo menos por horas. Por não haver energia, não haveria consumo e assim haveria uma ‘economia’. Mas se a concessionária resolvesse cobrar o relógio novo… bom, ai a economia se transformaria num estrondoso prejuízo.

O que é ‘Feito nas coxas’ é sinônimo de caro, demorado e arranjado, além de pouco ou nada eficiente. E cuidado com o Maria-vai-com-as-outras: pergunte! Sempre! A curiosidade, neste caso, pode salvar o gato ou a gata, em vez de matá-los.

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